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Outro dia, estive pensando: eu não sou exatamente uma santa! Seis anos de terapia e algumas bordoadas da vida nos ensinam a fazer escolhas baseadas naquilo que queremos e não naquilo que vai agradar aos outros e nos trazer reconhecimento. Isso, em geral, incomoda!

Quando aprendemos a nos posicionar segundo as nossas crenças, sem nos deixar levar pela moda, pela maré, pelas novelas ou pelas músicas mais tocadas, somos chamadas de chatas.

É isso aí: chata é aquela pessoa que não faz o que queremos. E eu sou uma dessas. Não consigo corresponder às expectativas alheias. E confesso: não me esforço muito nesse sentido. Dentro do possível, quero e busco corresponder às minhas expectativas. Isso sim, me traz sorrisos e felicidade.

Talvez isso me traga, também, alguns rótulos indesejáveis. Talvez… Mas antes assim. As pessoas que convivem comigo sabem das minhas posturas diante da vida. Sou clara a respeito delas. E, da mesma forma, as pessoas podem adotar as suas posturas, sem interferência. Procuro respeitar para ser respeitada.

Mas a questão não para por aí. Uma outra questão que deve ser levada em conta é que eu não tenho a menor vocação para ser a boazinha da galera. Alguém por aí conhece uma pessoa boazinha? Eu conheço várias. E elas são uma inspiração para mim.

A boazinha está sempre disposta a deixar a sua vida de lado para cuidar da vida de alguém: filho, marido, mãe, irmão, vizinho… Doa tudo o que tem, é altruísta ao extremo e sempre tem uma palavra de conforto e de amizade para oferecer. É incapaz de ofender a quem quer que seja; está sempre sorrindo e servindo.

Toda essa dedicação às causas alheias e toda essa subserviência seriam muito admiráveis se não fosse por alguns detalhes.

Pessoas assim conseguem que tudo ao seu redor seja feito exatamente do seu jeito. E a forma sutil de conseguir isso é se doando ao máximo. Não concorda? Então, vamos lá!

A boazinha faz o nosso chá… do jeito dela. A boazinha nos leva ao todos os lugares… no horário dela. A boazinha arruma o nosso computador… com as configurações que ela acha pertinente. A boazinha faz tudo por nós… da forma que ela julga que seja melhor para a nossa vida.

A boazinha doa sem nada receber e, com isso, faz de todos seus eternos devedores. Consequentemente, ninguém lhe negará nenhum pedido. Afinal, ela é tão boazinha, não?

E ela, sabendo disso, pede: coma mais um pouquinho (e saia da sua dieta!), coma isso que eu trouxe com todo carinho (e engorde bastante!), faça isso assim (e me agrade!), faça aquilo assado (e me deixe feliz!). Não me importa o que sentimos; importa que ela se sinta bem!

E assim, aos poucos, a boazinha vai dominando todo o ambiente, com bondade e doçura, com um jeitinho todo especial. E, mesmo dominados, vivendo sob esse jugo, todos a adoram. As suas palavras são lei. Quem ousaria contrariá-la sem sentir uma enorme culpa? Afinal, ela é tão boazinha, não?

É assim: a boazinha, de forma sutil, dá as cartas, dita o ritmo e todos a seguem, jurando que estão recebendo muito. Ledo engano! Estão, isso sim, entregando as suas escolhas nas mãos de outra pessoa, abdicando de suas vidas, de seu modo de viver, em função de outra pessoa.

Há um antigo ditado que diz: quem é carregado vira refém! E quem duvida?

Como eu disse, pessoas assim me inspiram. São grandes dominadoras e, ainda assim, queridíssimas e admiradíssimas. E quando tomam um passa fora (leia-se: quando alguém resolve não atender às suas vontades!), conseguem filas e filas de adeptos, consolando-as e dizendo que foram injustiçadas. Afinal, são tão boazinhas, não?

Somos humanos, estamos no topo da cadeia alimentar e, por conseguirmos raciocinar, todo o nosso intento é dominar o mundo, aí incluído o nosso semelhante. Queremos ver o mundo girando ao nosso redor, refletindo as nossas crenças, dançando de acordo com a nossa música. Queremos ter razão! Qualquer desentendimento, qualquer discussão, qualquer guerra, tem como plano de fundo o mesmo desejo: fazer com que o outro se curve a nós.

A única coisa que nos difere é que cada um encontra a sua forma de fazê-lo. Uns batem, outros gritam, outros choram, outros seduzem, outros chantageiam, outros subornam, outros tornam-se ricos, outros servem.

No entanto, o intuito é o mesmo! E não é nada nobre!

Por isso, sempre que identifico a boazinha, parto para o lado diametralmente oposto do ambiente. Eu também quero dominar; sou humana. Portanto, é melhor bater em retirada.

Ou então, em algum momento, sacudirei a boazinha, para que a sua máscara caia e todos se espantem com o que vai aparecer. Quem sabe assim, as pessoas acordem e decidam retomar as suas vidas? Quem sabe assim, as pessoas percebam que alguém que se posiciona, apesar de chata, joga aberto? Quem sabe assim, cada um se examine, para conhecer a sua forma de dominar o mundo e, com isso, domine os seus instintos?

Não é por acaso que o Cérebro é tão querido pela moçada: ele é claro em dizer que quer dominar o mundo! A única questão é que ele tem o Pink, uma pessoa boazinha, ao seu lado e… enfim…

Quem conhece o outro lado da bondade?

Acabei de assistir ao filme “Medianeras”. E estou impressionada com a densidade dos filmes argentinos. Em apenas oito minutos, já conhecíamos toda a psique de um dos personagens principais.

É verdade que este não é lá um filme dos mais empolgantes. Mas também não seria o caso de sair do cinema no meio da sessão. Vale o esforço, especialmente se olharmos de forma diferente para o que acontece ali.

A história fala, basicamente, de duas pessoas que se desencontram inúmeras vezes antes de se acharem em meio a uma grande cidade.

Os protagonistas moravam perto um do outro, mas cada um deles estava por lá, perdido, vivendo as suas neuroses, a sua infelicidade, os seus medos, as suas inseguranças. Cada um, ao seu modo, tentando se equilibrar na corda bamba de suas emoções.

Segundo o que acredito, a mente trabalha até que achemos soluções para aquilo que nos aflige. Basta focarmos em um objetivo, propormos o desafio e as respostas aparecem.

Foi exatamente isso que aconteceu no filme. Ambos estavam tentando ajustar sua vida sentimental. O foco era esse. E então o caminho, literalmente, se abriu à frente deles. Melhor dizendo, eles abriram o caminho diante de si.

Cada um deles abriu uma janela em um local perdido de seu apartamento, que coincidia com a lateral do prédio, o que proporcionou a ambos um contato maior com a cidade. Diferente, não?

O fato é que eles olharam para um local sem uso, esquecido e largado que, uma vez aberto, remexido e repaginado, lhes trouxe luz e, é claro, uma vida nova.

Há quem diga que quando uma janela se fecha, uma porta se abre. Neste caso, as portas pareciam fechadas, mas as janelas se abriram, trazendo uma infinidade de possibilidades.

A solução parece óbvia, mas nem sempre o é. Muitas vezes, agimos assim em nossas próprias vidas. Evitamos olhar para os lugares escuros que há muito abandonamos, seja por medo, seja por comodismo. E, fazendo isso, perdemos várias oportunidades de criar uma realidade totalmente nova para nós mesmos.

Certa vez, um fazendeiro resolveu vender uma parte de sua terra, por julgá-la inútil e improdutiva. O comprador construiu ali um posto de gasolina e alguns quartinhos, dando início aos hotéis de beira de estrada.

As oportunidades estão sempre por aí. Cabe a nós enxergá-las, criá-las, fazer com que aconteçam.

No filme, duas simples janelas laterais mudaram a vida de duas pessoas tristes e infelizes. Em nossa vida, as janelas podem ser abertas a qualquer momento. Basta querermos.

A atitude vai trazer alguma sujeira, alguns bichinhos indesejáveis, uma espécie de caos. Mas, passada a tempestade, o resultado final pode ser maravilhoso!

Que tal abrirmos janelas em alguns lugares escuros, secretos e abafados de nossas almas? Que tal permitir a entrada da luz e do ar, com as suas já conhecidas capacidades de renovação?

Se não soubermos como fazê-lo, basta pedir ajuda. Os protagonistas do filme contrataram operários para abrir as suas janelas. Nós podemos nos valer de muitas outras pessoas para nos ajudar na missão.

Então, fica o convite! Mãos à obra e boa sorte na empreitada! Quando visualizamos o resultado, o caminho se torna mais suave.

É dia das mães! E como não falar nelas? Impossível! Como vocês sabem, optei por não ser mãe. Acho que o bom senso me impediu de fazê-lo. Em algum momento da vida, olhei para mim e pensei:

- Putz! Como alguém pode querer ser filho de uma pessoa atrapalhada ao ponto de ser incapaz de fechar portas sem batê-las, emocionalmente instável, com uma sensibilidade acima do normal, vegetariana e taróloga?!?!

Eu não sei se gostaria de ter uma mãe assim. Portanto, não impus esse ônus a ninguém! E, olhando para as minhas amigas, sinto que tomei a decisão certa!

Conheço muitas mães e, sob vários aspectos, todas elas são especiais. A minha, por exemplo, lutou contra toda a razão, contra todos os médicos e contra o seu próprio medo para me trazer ao mundo. Uma mulher forte, corajosa e capaz de nos defender ainda hoje, com os seus setenta e dois anos.

Tenho uma amiga que tem três filhos. Isso seria natural, se ela não tivesse sofrido poliomielite na infância e tivesse uma pequena dificuldade para se locomover. Ela também lutou contra a natureza, para realizar o sonho da maternidade. E acho que valeu a pena. Poucas pessoas sabem lidar com os filhos como ela, sempre negociando, incentivando, apoiando e exortando, tudo na medida certa.

Outra amiga, ainda, se submeteu a várias inseminações artificiais para trazer duas crianças lindas e dóceis ao mundo. Enfrentou situações, medos, dores e milhares de outras coisas, apenas para estampar no rosto um par de olhos brilhantes de amor e cuidados.

A minha irmã é uma mãezona! Lava, passa, cozinha, acaricia, ensina, briga, tudo ao mesmo tempo. Parece um polvo cuidando de seus três filhos e, agora, de suas três netas! Sempre disposta, incansável, disponível!

Disponível… essa é a palavra que falta em minha vida. Eu não consigo estar disponível sempre que sou requisitada. Simplesmente não consigo! Já perdi muitas oportunidades na vida, apenas por não estar disponível naquele momento. E isso é inconcebível em uma mãe.

As mães que conheço têm uma reserva inesgotável de disponibilidade. E não falo apenas de disponibilidade física; falo daquela mais importante: a disponibilidade emocional.

Sempre há uma palavra, um carinho, um afeto, um xingamento ou qualquer outra manifestação. Sempre há atenção aos seus filhos. Não importa a situação, elas sempre estão lá por nós: na festinha da escola, na reunião de pais, no pediatra, na primeira menstruação, após as baladas, na primeira dor de cotovelo (e em todas as outras!), na festa de formatura, no casamento, no nascimento de nossos filhos… Sempre! E, quando não podem estar ao nosso lado, deixam um vazio intransponível.

Essa semana mesmo, estávamos conversando sobre isso em nosso grupo de meditação e uma das minhas irmãs de evolução ilustrou bem o que digo. O seu filho mais novo está para prestar o vestibular e, como era de se esperar, entrou em um processo de ansiedade. Quando se percebeu assim, disse a ela:

- Mãe, estou entrando na ansiedade que antecede os momentos decisivos da vida.

Ela, que já havia percebido o que ele estava sentindo, respondeu:

- Venha cá, que eu tenho a cura para isso!

Dizendo isso, o pegou e deu um longo e apertado abraço. Ele, sem entender, perguntou:

- E onde está a cura?

Ela, sabiamente, retrucou:

- Abraço de mãe cura tudo! E ainda faz passar no vestibular!

Ele sorriu, disse que confiava em suas palavras e passou a se sentir melhor.

A minha amiga tem razão: abraço de mãe cura tudo!

Que tal abraçarmos as nossas mães para sentir o que a força do amor é capaz de fazer? Estou certa de que receberemos infinitamente mais do que estamos oferecendo. E o melhor é que todos sairão felizes! Afinal, vocação de mãe é doar sem nada esperar em troca!

Salve todas as mães!

Semana passada, soube que uma amiga está passando por um problema de saúde sério. A gravidade da questão a obrigou a ir para São Paulo, procurar um tratamento mais específico. E como tudo nos chegou de surpresa, ficamos chocados, abalados e perplexos com a situação.

Uma outra amiga tem nos informado sobre o andamento do tratamento. Isso alivia a sensação de impotência, pois, mesmo à distância, estamos acompanhando o caso e fazendo aquilo que podemos.

Mas o que é mesmo que podemos efetivamente fazer para ajudá-la a superar tudo isso e voltar para casa a salvo?

Como alguém já disse, quando o discípulo está pronto, o mestre aparece. Estou lendo a segunda lição do livro “As sete leis espirituais do sucesso”, de Deepak Chopra. E a lição fala da doação, essa atitude maravilhosa da qual nos esquecemos constantemente.

A doação é uma força poderosa, pois ela coloca a vida em movimento. Isso mesmo: doar significa colocar toda a nossa vida em movimento. Quando doamos algo, abrimos espaço para a chegada de mais desse mesmo algo. Então, a equação é simples: o que quer que doemos nos chega novamente, muitas vezes multiplicado. Basta que a intenção seja a de doar, de oferecer algo, desinteressadamente.

O livro traz várias lições preciosas, mas uma, em especial, me chamou a atenção. O autor nos ensina a levarmos sempre um presente quando formos visitar alguém. O presente pode ser qualquer coisa, material ou imaterial. Flores, doces, amor, carinho, atenção, compaixão, solidariedade, abraços, um bilhete, uma bênção, uma prece silenciosa…

Uma prece silenciosa… Quantas preces silenciosas fazemos sem suspeitar o movimento que estamos imprimindo no Universo? Se pararmos para observar, estamos sempre fazendo preces: preciso de uma vaga no estacionamento, obrigada pela vaga que achei; preciso chegar a tempo no lugar marcado, obrigada por ter conseguido cumprir o horário; preciso disso, obrigada por aquilo… e por aí vai.

Mas o que dizer da prece que podemos oferecer ao outro? Eu fiquei imaginando a cena: sou convidada para ir visitar alguém, chego lá e, mentalmente, desejo àquela família tudo de bom. Em seguida, mentalizo pétalas de amor, paz, saúde, prosperidade, união e felicidade saindo do meu coração e se depositando em cada canto da casa. Depois agradeço ao Universo por todas as benesses concedidas, pois tenho certeza de que doei com amor e agora é com o pessoal lá de cima.

Bacana, não? Levando em conta que só podemos oferecer aquilo que trazemos conosco, fazer esse exercício simples poderá nos tornar pessoas melhores. Poderemos descobrir virtudes que não conhecíamos; poderemos decidir cultivar outras tantas, apenas para poder ofertar.

Com essas palavras no coração, resolvi parar por um momento, pensar em minha amiga e, com isso, descobri a única coisa que posso fazer por ela no momento: uma prece. É verdade que eu não posso ir visitá-la; mas, ainda assim, posso oferecer a ela uma prece. Acontece que quem escreve não faz muita coisa silenciosamente. Então, aí vai a prece em alto e bom som mesmo:

- Desejo que uma luz verde, cheia de força e cura, venha do coração de Deus, te envolva carinhosamente e te dê condições de atravessar esse momento da melhor maneira possível. Desejo que o Arcanjo Rafael e seus anjos de cura acampem ao seu redor e te guardem. Desejo que a paz e a tranquilidade de Deus te alcancem neste momento. E, quanto ao mais, todos esperam o seu retorno para continuar iluminando vidas com o seu sorriso franco e aberto.

Que assim seja!

Doar não dói. Vamos iniciar a corrente do bem?

Alguém já percebeu que os livros preciosos sempre nos chegam às mãos quando precisamos deles? Às vezes, estamos em uma livraria, em uma biblioteca ou conversando com um amigo e… pluft… o livro (ou o seu nome) aparece quase como um milagre.

E por falar nisso, outro dia estava relendo um livro que se chama “Onde os milagres acontecem”. Eu acredito em milagres; eles têm a capacidade de reforçar a nossa fé na vida.

Como o título define, o livro fala dos milagres recebidos, vários deles: na estrada, na neve, com anjos, em forma de sinais, de cheiros e de avisos… No entanto, apenas quando estava lendo o livro, percebi a sutileza do título.

Onde será mesmo que os milagres acontecem?

Como eu disse, os livros preciosos nos chegam às mãos quando estamos precisando deles. E eu sempre estou. Todo o meu esforço nessa vida é no sentido de me tornar uma pessoa melhor; um ser humano mais evoluído. Se algumas teorias que circulam por aí estão corretas e se eu continuar como estou, na próxima encarnação volto como ameba. Talvez uma lesma. Na melhor das hipóteses, um caranguejo.

No entanto, mesmo um ser unicelular luta, luta, luta até se tornar pluricelular e mudar a sua forma de vida. E aqui estou eu: um ser em constante luta para dar um passo adiante.

A leitura da vez se chama “As sete leis espirituais do sucesso”, de Deepak Chopra. Abri o livro sem saber o que me esperava e a primeira lição fala da importância do silêncio. O autor ressalta que o silêncio nos coloca em contato com o nosso ser mais profundo, o que nos permite enxergar, claramente, aquilo que desejamos.

Segundo ele, o silêncio, a meditação e o não julgamento são estados de consciência desejáveis, que deveríamos cultivar sempre, sem nos deixar abalar. Difícil, não?

Ele também ensina que o nosso silêncio interior nos coloca em contato com o silêncio do Universo, um local onde tudo é possível. Para realizarmos os nossos desejos, basta acessarmos esse local quieto e depositarmos ali as nossas mais profundas intenções.

E então, os milagres acontecem!

Opa!!! Como eu não vi isso antes?!?! Os milagres acontecem no silêncio do nosso interior. Eles ocorrem quando nos dispomos a parar um pouco, sondar o nosso coração, ouvi-lo e levar a sua mensagem para aquele local sagrado do Cosmos, onde há uma infinidade de possibilidades; onde os milagres são infinitos.

Eles estão lá; basta solicitá-los, criá-los e eles aparecerão em nossa frente, nos deixando perplexos e realizados.

O que são milagres, senão os nossos desejos manifestados diante dos nossos olhos? O que são graças, senão aquilo que julgávamos que jamais receberíamos e, de repente, elas nos aparecem do nada, como uma coincidência?

Coincidência? Como assim?! Houve um pedido, um desejo, uma solicitação. O fato de eles serem atendidos não é coincidência; é benevolência.

Portanto, a partir de hoje, a sugestão é a seguinte: que tal um pouco de silêncio interior duas vezes ao dia, pelo tempo que conseguirmos?

O esforço pode parecer grande, mas, nem de longe, se compara às maravilhas que podemos alcançar.

E então? Quem deseja começar a criar os seus milagres?

Ontem eu assisti ao filme “Sexo sem compromisso”. É uma comediazinha romântica daquelas boas para se ver domingo à noite. Nenhuma pretensão; só a de passar o tempo fazendo algo agradável.

O filme, como o título deixa antever, fala de um casal que se compromete a fazer sexo e evitar eventuais vínculos que daí advenham. Bem, esse é o compromisso que eles fazem. Mas, na realidade…

Os americanos sempre tentam passar a ideia de um povo liberal, livre dos valores que os seus pais cultivavam. E nós, assim como o cachorro de Pavlov, tentamos imitar o que os filmes insistem em mostrar.

É mais do que óbvio que o casal do filma acaba por se apaixonar. Mesmo a mulher, a mais resistente à ideia, cai de amores pelo galã que a satisfaz na cama, na mesa e no dia a dia.

E a pergunta é: será que eles, os americanos, de fato, se comportam assim? E nós? ! Queremos relacionamentos assim para a nossa vida?

Não sei.

Aos domingos, além de correr e ver filmes despretensiosos, eu saio com amigos no final da tarde para um lanche e uma boa conversa. Outro dia, estive com um novo integrante do grupo de corrida que, aos poucos, está se chegando a nós. Como era de se esperar, fiz o interrogatório padrão (sou uma ótima investigadora!). E chegamos à conclusão de que ele precisa de um relacionamento sério. Melhor dizendo, ele chegou a esta conclusão. A vida é dele, afinal. Nós só o apoiamos em sua constatação.

Ele saiu de um casamento problemático há um ano e, apesar de ter se livrado de um quilo de problemas, anda se sentindo só. Sua família não mora aqui; ele só tem os amigos que, como sabemos, ficam do lado de fora quando fechamos a porta de casa. Então, de vez em quando, a solidão o assalta.

Isso é natural! Querer um relacionamento também é natural. E mais natural ainda é o fato de eu querer dar uma força nesse sentido!

Portanto, pedi a ele que fizesse um formulário com as características da mulher com a qual ele espera se relacionar.

A sua resposta me chamou a atenção:

- Sandra, eu preciso de uma mulher que esteja disposta a viver um grande amor.

Eu fiquei muda! E olha que para eu ficar muda, precisa de um grande impacto. Mas, desta vez, juro que fiquei passada!

Ele é um carinha de trinta e três anos, um jovem ainda, e já quer viver um grande amor. Quem não quer?

Eu penso que, como ele, haja milhares de pessoas ao redor do mundo desejando exatamente a mesma coisa: viver um grande amor.

O casal do filme fugiu disso até perceber que era inútil; que era isso, exatamente isso, o que eles queriam.

O meu amigo foi honesto, sincero e me disse na lata:

- Eu quero uma mulher para viver um grande amor!

Fico intrigada com o fato de que há tantas pessoas com tal interesse e, ao mesmo tempo, tantas outras sozinhas, sofrendo com a solidão. Não faz sentido.

Pensando sobre isso, me veio a seguinte questão: o que é necessário para se viver um grande amor? Vinícius de Moraes fez um belo poema sobre o tema e deu muitas, muitas dicas sobre os requisitos para fazê-lo.

Amo o poeta! Não ousaria descordar dele. Apenas resumi-lo.

Para se viver um grande amor é preciso disposição e honestidade. Todo o resto vai se encaixando, conforme a música da vida.

Quem está disposto a investir em um grande amor?

Domingo passado comemoramos a Páscoa. O seu simbolismo me fascina! Um Cristo desfigurado, após um ministério sofrido e um calvário torturante, some de cena para reaparecer, três dias depois, em pleno esplendor. Não é fantástico?!

E por falar em sair de cena e reaparecer transfigurado, esta semana assisti ao filme “A pele que habito”. Estou atrasada com os filmes. Na verdade, há algum tempo eu não vou ao cinema. Prefiro o teatro. Mas este foi um filme bastante indicado e resolvi arriscar.

A primeira coisa que me chamou a atenção foi a forma das indicações: “você precisa ver este filme; acho que vai gostar.” Nenhuma menção sobre uma eventual história, nada de sinopse, nada da própria impressão sobre o filme.

Só quando o assisti, pude perceber o motivo.

A história é louca, é verdade. Mas o que assusta é que ela é perfeitamente factível e… humana. É difícil admitirmos que nós mesmos, apesar de nos sentirmos chocados com o filme, somos absolutamente capazes de fazer algo ruim. Talvez nem tão ruim quanto o que o personagem do Antonio Banderas fez; mas, ainda assim, ruim.

As coisas se tornam especialmente sombrias quando percebemos que todas as suas ações foram baseadas em uma suposição. Ele não tinha provas da existência de qualquer violência contra a menina que, diga-se de passagem, também tinha lá os seus desequilíbrios. E, de certa forma, foram eles, esses desequilíbrios que deram causa a toda a história.

Vendo o filme, fica a pergunta: quem de nós já não fez, com base em suposições, coisas das quais se arrependeu depois?

- É claro que somos incapazes de fazer algo cruel – pensamos.

Mas em seguida aquele anjinho malvado se coloca em nosso ombro e, sabiamente, questiona:

- Será?! Afinal, não foram vocês, humanos, que crucificaram Cristo?!

E isso nos balança. Duvidamos da nossa boa índole, da nossa altivez, dos bons valores que julgamos cultivar e preservar a qualquer custo. E é terrível constatar isso.

Mas, como eu disse, somos humanos. E ali está uma parte bem escondida de nós, retratada nuamente, cruamente. A sombra trazida à luz, para que olhemos para ela com sinceridade.

Assustador, não?

Mas é assim mesmo: há um lado terrível em cada um de nós, que lutamos, com todas as forças para esconder.

Uma vez mais, Almodóvar nos colocou de frente com a nossa própria loucura, com a nossa própria sujeira e nos convocou:

- Limpe-a. Admita que você também é capaz de  fazer algo sórdido, baixo, de forma fria e calculada, quando é ferido.

“Admita a sua loucura; aquela com a qual você lida todos os dias e sobre a qual não ousa conversar; aquela que você jamais vai confessar.”

E eu estou aqui até agora, remoendo o filme, passando-o em revista e pensando:

- Por que eu tenho que ver a loucura do Almodóvar, se a minha me espreita a cada dia?

E a resposta é simples: não há loucura alguma no Almodóvar; aquela que está ali na tela é toda minha. Apenas com uma pele diferente.

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