Outro dia, estive pensando: eu não sou exatamente uma santa! Seis anos de terapia e algumas bordoadas da vida nos ensinam a fazer escolhas baseadas naquilo que queremos e não naquilo que vai agradar aos outros e nos trazer reconhecimento. Isso, em geral, incomoda!
Quando aprendemos a nos posicionar segundo as nossas crenças, sem nos deixar levar pela moda, pela maré, pelas novelas ou pelas músicas mais tocadas, somos chamadas de chatas.
É isso aí: chata é aquela pessoa que não faz o que queremos. E eu sou uma dessas. Não consigo corresponder às expectativas alheias. E confesso: não me esforço muito nesse sentido. Dentro do possível, quero e busco corresponder às minhas expectativas. Isso sim, me traz sorrisos e felicidade.
Talvez isso me traga, também, alguns rótulos indesejáveis. Talvez… Mas antes assim. As pessoas que convivem comigo sabem das minhas posturas diante da vida. Sou clara a respeito delas. E, da mesma forma, as pessoas podem adotar as suas posturas, sem interferência. Procuro respeitar para ser respeitada.
Mas a questão não para por aí. Uma outra questão que deve ser levada em conta é que eu não tenho a menor vocação para ser a boazinha da galera. Alguém por aí conhece uma pessoa boazinha? Eu conheço várias. E elas são uma inspiração para mim.
A boazinha está sempre disposta a deixar a sua vida de lado para cuidar da vida de alguém: filho, marido, mãe, irmão, vizinho… Doa tudo o que tem, é altruísta ao extremo e sempre tem uma palavra de conforto e de amizade para oferecer. É incapaz de ofender a quem quer que seja; está sempre sorrindo e servindo.
Toda essa dedicação às causas alheias e toda essa subserviência seriam muito admiráveis se não fosse por alguns detalhes.
Pessoas assim conseguem que tudo ao seu redor seja feito exatamente do seu jeito. E a forma sutil de conseguir isso é se doando ao máximo. Não concorda? Então, vamos lá!
A boazinha faz o nosso chá… do jeito dela. A boazinha nos leva ao todos os lugares… no horário dela. A boazinha arruma o nosso computador… com as configurações que ela acha pertinente. A boazinha faz tudo por nós… da forma que ela julga que seja melhor para a nossa vida.
A boazinha doa sem nada receber e, com isso, faz de todos seus eternos devedores. Consequentemente, ninguém lhe negará nenhum pedido. Afinal, ela é tão boazinha, não?
E ela, sabendo disso, pede: coma mais um pouquinho (e saia da sua dieta!), coma isso que eu trouxe com todo carinho (e engorde bastante!), faça isso assim (e me agrade!), faça aquilo assado (e me deixe feliz!). Não me importa o que sentimos; importa que ela se sinta bem!
E assim, aos poucos, a boazinha vai dominando todo o ambiente, com bondade e doçura, com um jeitinho todo especial. E, mesmo dominados, vivendo sob esse jugo, todos a adoram. As suas palavras são lei. Quem ousaria contrariá-la sem sentir uma enorme culpa? Afinal, ela é tão boazinha, não?
É assim: a boazinha, de forma sutil, dá as cartas, dita o ritmo e todos a seguem, jurando que estão recebendo muito. Ledo engano! Estão, isso sim, entregando as suas escolhas nas mãos de outra pessoa, abdicando de suas vidas, de seu modo de viver, em função de outra pessoa.
Há um antigo ditado que diz: quem é carregado vira refém! E quem duvida?
Como eu disse, pessoas assim me inspiram. São grandes dominadoras e, ainda assim, queridíssimas e admiradíssimas. E quando tomam um passa fora (leia-se: quando alguém resolve não atender às suas vontades!), conseguem filas e filas de adeptos, consolando-as e dizendo que foram injustiçadas. Afinal, são tão boazinhas, não?
Somos humanos, estamos no topo da cadeia alimentar e, por conseguirmos raciocinar, todo o nosso intento é dominar o mundo, aí incluído o nosso semelhante. Queremos ver o mundo girando ao nosso redor, refletindo as nossas crenças, dançando de acordo com a nossa música. Queremos ter razão! Qualquer desentendimento, qualquer discussão, qualquer guerra, tem como plano de fundo o mesmo desejo: fazer com que o outro se curve a nós.
A única coisa que nos difere é que cada um encontra a sua forma de fazê-lo. Uns batem, outros gritam, outros choram, outros seduzem, outros chantageiam, outros subornam, outros tornam-se ricos, outros servem.
No entanto, o intuito é o mesmo! E não é nada nobre!
Por isso, sempre que identifico a boazinha, parto para o lado diametralmente oposto do ambiente. Eu também quero dominar; sou humana. Portanto, é melhor bater em retirada.
Ou então, em algum momento, sacudirei a boazinha, para que a sua máscara caia e todos se espantem com o que vai aparecer. Quem sabe assim, as pessoas acordem e decidam retomar as suas vidas? Quem sabe assim, as pessoas percebam que alguém que se posiciona, apesar de chata, joga aberto? Quem sabe assim, cada um se examine, para conhecer a sua forma de dominar o mundo e, com isso, domine os seus instintos?
Não é por acaso que o Cérebro é tão querido pela moçada: ele é claro em dizer que quer dominar o mundo! A única questão é que ele tem o Pink, uma pessoa boazinha, ao seu lado e… enfim…
Quem conhece o outro lado da bondade?






